Se as olimpíadas não deixarão legado, a abertura já deixou

Romolo Megda*

é Diretor de Criação da Babel e professor de criação na ESPM.

 

Passadas 24 horas da abertura das Olimpíadas do Rio, fica mais fácil organizar o pensamento.

Foi linda, emocionante, contagiante, talvez uma das coisas mais bonitas que já vi na vida. O fato de ser brasileiro amplifica a emoção, o nó na garganta e tudo mais, mas acredito que todo mundo do mundo todo achou a abertura linda que só.

O Estadão tinha uma manchete no dia da abertura que dizia que iríamos celebrar a cultura da gambiarra.

Tava na vibe de todo mundo, a gente já tava fazendo piada antes mesmo de ver para se preparar para o pior.

Não teve nada de gambiarra, muito pelo contrário. Teve inteligência de quem criou a abertura em trabalhar com um orçamento apertado.

O custo, para um evento como esse, foi bem abaixo dos padrões. Segundo alguns veículos da imprensa, custou entre 10% e 15% do valor da abertura dos Jogos de Londres. Ponto para o Brasil.

O que mostramos para o mundo é que 1) dá pra fazer muito bonito mesmo sem grana, 2) dá para fazer muito bonito mesmo nesse baixo-astral dominante e 3) nós temos muito bom gosto. Sim, porque a nossa abertura teve, acima de tudo, bom gosto.

Ao invés dos indefectíveis cantores de vozes poderosas se esgoelando no hino nacional, tivemos Paulinho da Viola, coisa finíssima, na medida, minimalista, chique de dar gosto. Ali, já vi que ia ser incrível a nossa abertura.

O sucesso começou na escolha da comissão criativa que cuidou da contenda: Fernando Meirelles, Andrucha Waddington, Daniela Thomas e Deborah Colker. Brasileiros talentosíssimos que não tem rabo preso com ninguém, que tem reconhecimento pelo seu trabalho e que souberam suportar a pressão da responsabilidade de fazer o trabalho no atual momento do Brasil.

A verdade é que toda a opinião pública estava contra, até 24 horas atrás.

Faz sentido: pensar numa Olimpíada no Brasil hoje é um disparate.

Aqui, vale um parênteses: quando fomos escolhidos para sediar as Olimpíadas, não estávamos bem, nunca estivemos. Mas também não estávamos nesse limbo político que vivemos hoje. O Lula não dispunha do prestígio de outrora, mas ainda era um presidente que era respeitado como tal, gostando dele ou não.

Tínhamos os problemas estruturais que sempre tivemos, mas não tínhamos nem de perto a crise econômica e o clima político que temos hoje.

A escolha correta teria sido não se candidatar. Mas, uma vez candidato e, principalmente, uma vez escolhido, engole o choro, tapa o nariz e enfrenta essa parada. Já que tem de fazer, que faça bem feito!

Voltando.
A escolha das pessoas que cuidaram da abertura, com o Fernando Meirelles liderando, foi importantíssima porque eles eram os responsáveis pelas escolhas.
E, salvo um ou outro nome, uma outra cena, o que eles escolheram para representar o Brasil e a cidade do Rio de Janeiro foi na mosca (ops, eu disse mosca?).

Alguns detalhes que fizeram toda a diferença e que poucos comentaram:  lindos os triciclos entrando na frente das delegações, não?

Aliás, quem entrou na frente da delegação brasileira foi a Lea T, modelo transgênera (com um detalhe: ela é filha do Cerezzo, o meio campista da seleção que convive até hoje com o peso de ter dado um passe pro Paolo Rossi fazer o gol da desclassificação do Brasil na Copa de 82). Que belo recado demos pro mundo com essa escolha, não?

E a ideia do símbolo da paz se transformar numa árvore, não é simplesmente genial? Ouvi dizer que foi ideia do Ziraldo.
A cerimônia acabou tão bem como começou: Vanderlei Cordeiro de Lima para acender a tocha, que cena mais emocionante! Que história linda tem esse brasileiro!

Por fim, se as Olimpíadas não vão deixar um legado através das obras de infraestrutura, talvez a abertura deixe.

Se os nossos governantes roubam até a última gota dos nossos recursos, os brasileiros comuns, talentosos, nos devolveram nosso orgulho e a nossa cabeça erguida.

Nós não resolvemos nenhum problema do Brasil com a nossa abertura, mas, pelo menos, percebemos que é possível construir um país bem melhor do que este que insistem em nos roubar.

Quem sabe não estamos entrando em uma nova era?

P.S.: vi algumas pessoas reclamando do Galvão Bueno na abertura dos Jogos Olímpicos. Gostaria de esclarecer que o Galvão Bueno não fez parte da abertura, ele apenas transmitiu pela Rede Globo, como sempre faz, aliás. Peço que da próxima vez, essas pessoas cometam a ousadia de mudar de canal. Talvez dê uma certa insegurança, mas para evoluir é preciso ter coragem. Vai com fé.

P.S.2: muitas das ideias do texto surgiram depois de uma conversa com meu grande amigo Luiz Eduardo Serafim.

*Colaboração especial

Foto: Ivan Alvarado, Reuters

  • Instagram @braznu

    Use a hashtag #braznu no instagram e compartilhe conosco os lugares, as experiências e iniciativas, que valem a pena ser compartilhadas. Participe!

    • La nave degli immigranti - Serafina Corrêa, RS 😍
Foto: @taylipb via #braznu
    • "A arte de Ipuã" - @artes.dan via #braznu ❤️
    • Rua 24 horas - Curitiba, PR 😍
Foto: @cristianjunior_ via #braznu
    • @paulo_espirito via #braznu 😍

#Grafite: @cranioartes - Vila Mariana / São Paulo, SP
    • Ó, que linda a rua Pio XII, Centro de Londrina, PR 😍
Foto: @patrickrocha01 via #braznu
    • Que foto é essa, @venicafb? 😍
Manaus, AM - via #braznu
  • Talks

  • Peça sua música / Com Rafael Brasil

    Quadro com o músico gaúcho Rafael Brasil, que valoriza grandes nomes da Música Popular Brasileira. Toda semana, um novo pedido dos nossos seguidores.

  • ir para o topo da página

    ASSINE NOSSA NEWSLETTER

    Receba novidades sobre nossos conteúdos, atividades e promoções.